
O candidato do Novo à Presidência da República parecia preparado para apresentar ao Brasil o personagem cuidadosamente construído por seus marqueteiros: o empresário bem-sucedido, o gestor austero, o político diferente e o homem que teria administrado Minas Gerais como quem administra uma grande empresa.
Mas Renata não estava ali para conhecer o personagem.
Estava ali para confrontá-lo com os fatos.
E foi exatamente isso que fez.
Sem elevar a voz, sem transformar a entrevista em discussão de botequim e sem recorrer a qualquer tipo de agressividade, Renata Vasconcelos mostrou como se desmonta um discurso político: com informação, números, perguntas objetivas e a disposição de não aceitar respostas ensaiadas.
Zema tentou vender gestão. Renata apresentou a conta.
O ex-governador gosta de repetir que recuperou Minas Gerais. Entretanto, durante sua passagem pelo governo, a dívida mineira saltou de aproximadamente R$ 88 bilhões, em 2019, para quase R$ 180 bilhões em 2025.
Quando confrontado, Zema culpou os “juros de agiota” cobrados pelo governo federal. Pode até existir uma discussão legítima sobre os encargos da dívida, mas o fato concreto permaneceu diante das câmeras: sob o comando do empresário que promete administrar o Brasil com eficiência, a dívida de Minas praticamente dobrou.
E Renata não permitiu que o candidato escapasse pela porta lateral do discurso.
Outro momento constrangedor veio quando Zema foi questionado sobre o aumento de quase 300% concedido ao próprio salário, ao do vice-governador e aos secretários estaduais.
O salário do governador saiu de cerca de R$ 10,5 mil para mais de R$ 41 mil.
Zema respondeu que precisava pagar salários melhores para atrair “pessoas boas” para o governo. Depois, tentou se colocar fora da própria decisão, afirmando que doava o salário recebido às Apaes de Minas Gerais.
A doação pode ser um gesto pessoal elogiável, mas não apaga o ato administrativo.
O aumento existiu. Foi sancionado por ele. E foi pago com dinheiro público.
Aliás, curioso esse liberalismo que considera exagerado aumentar o salário-mínimo do trabalhador, mas encontra argumentos de sobra para elevar em quase 300% os vencimentos do primeiro escalão do governo.
Para os secretários, valorização. Para o trabalhador, responsabilidade fiscal.
É o Novo de sempre com uma embalagem renovada.
Na vacinação, Zema também tentou caminhar sobre o muro. Disse acreditar na ciência, declarou ter tomado as doses contra a Covid-19, mas se posicionou contra a obrigatoriedade da imunização.
Renata respondeu com o princípio elementar que o candidato preferiu ignorar: vacinação não é apenas uma decisão individual. Quando grande parte da população deixa de se vacinar, diminui a proteção coletiva e reaparecem doenças que já estavam controladas.
Zema falava como candidato preocupado em agradar ao eleitorado mais radical. Renata respondia como jornalista comprometida com a realidade.
E realidade, meu amigo, costuma ser uma adversária terrível para quem chega a uma entrevista carregando apenas frases prontas.
No tema dos ataques de 8 de janeiro, Zema voltou a negar que tenha ocorrido uma tentativa de golpe. Classificou os acontecimentos como atos de vandalismo e defendeu anistia aos condenados.
Renata não deixou a afirmação passar como se fosse apenas uma opinião qualquer.

O candidato foi lembrado de que o Brasil inteiro acompanhou a invasão e a destruição das sedes dos três Poderes. Não se tratava de uma vidraça quebrada durante uma manifestação de rua. O objetivo político daquele movimento estava estampado nas faixas, nos discursos, nos acampamentos e nos pedidos de intervenção militar.
Negar o caráter golpista do 8 de janeiro não transforma o episódio em simples vandalismo. Apenas revela até onde alguns candidatos estão dispostos a ir para conquistar o apoio do eleitorado bolsonarista.
Até quando foi perguntado sobre políticas de proteção às mulheres, Zema conseguiu produzir uma frase desastrosa: disse possuir “uma série de programas contra as mulheres”.
Evidentemente, foi uma gafe. Ele queria se referir a programas de combate à violência contra a mulher. Não seria justo transformar um tropeço verbal em posição política.
Mas o episódio resumiu bem uma noite na qual quase nada saiu como o candidato havia planejado.
Zema faltou ao primeiro debate entre os presidenciáveis. Sua campanha alegou que ele precisava se preparar para a entrevista na Globo.
Pelo resultado, ou faltou tempo para a preparação ou sobraram fatos para serem explicados.
Renata Vasconcelos foi a grande estrela da noite porque fez aquilo que todo jornalista deveria fazer diante de qualquer candidato, seja de direita, de esquerda ou do centro: perguntou, ouviu, confrontou e não permitiu que a entrevista fosse transformada em horário eleitoral gratuito.
César Tralli também cumpriu seu papel com firmeza. Mas foi Renata quem imprimiu o ritmo, apertou onde as respostas ficavam frouxas e mostrou que elegância não significa passividade.
Ela não precisou humilhar Zema.
Os próprios números fizeram isso.
Também não precisou declarar que ele estava errado.
Bastou deixá-lo explicar as próprias contradições.
No final, o candidato que chegou querendo apresentar ao país suas credenciais de gestor saiu da sabatina tentando justificar dívida dobrada, aumento de quase 300% para o alto escalão, resistência à vacinação obrigatória e anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro.
Renata não colocou palavras na boca de Romeu Zema.
Colocou fatos diante dele.
E, quando os fatos entraram no estúdio, o personagem começou a sair de cena.
Carlos Caldeira – DRT 002105/RO









